Pensamento sistêmico: O que é e como pode ajudar você a tomar ações mais eficazes?

Por: Edson Moreira

O pensamento sistêmico como mindset evoluiu da Teoria Geral dos Sistemas, através do trabalho de Karl Ludwig von Bertalanffy, em 1937. Atualmente ele é utilizado para fornecer uma perspectiva diferente para entender o mundo, incluindo organizações e projetos. 

O pensamento sistêmico substitui:

  • O reducionismo: Que é a crença de que tudo pode ser reduzido a partes individuais
  • A causa e efeito: Teoria da explicação livre de ambiente
  • O determinismo: Fatalismo

Por:

  • Expansionismo: Onde o sistema sempre pode ser um subsistema de algum sistema maior
  • Produto-produtor: Que é a teoria da explicação ambientalmente completa
  • Indeterminismo: Focado no pensamento probabilístico

Além disso, substitui a análise, onde se obtém o conhecimento do sistema entendendo suas partes, pela síntese, que explica o papel do sistema através da visão macro da qual faz parte. Russell Ackoff, teórico norte-americano e mestre de Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna,  apresenta que:

“A análise é útil para revelar como um sistema funciona, mas a síntese revela por que um sistema funciona da maneira que funciona.” 

Peter Senge, autor do livro “A Quinta Disciplina”, definiu o pensamento sistêmico como “um disciplina para ver o todo. É um quadro referencial para ver inter-relacionamentos, ao invés de eventos; para ver os padrões de mudanças ao invés de fotos instantâneas.”

O que são sistemas?

A Dra. Donella Meadows, uma das maiores autoridades do Systems Thinking do mundo, define sistema como:

“Um conjunto de coisas conectadas que produzem o seu próprio padrão de comportamento ao longo do tempo.”

Senge em “A Quinta Disciplina” também define que: 

“Um sistema é um todo percebido cujos elementos mantêm-se juntos porque afetam continuamente uns aos outros, ao longo do tempo, e atuam para um propósito comum.”

É importante observar que em ambas as definições aparecem três itens que compõem todo e qualquer sistema: propósito, interações e elementos.

Como aplicar o pensamento sistêmico nas empresas?

Considerando a visão sistêmica como uma nova forma de ver e compreender o mundo, suas relações, elementos e propósitos, o pensador sistêmico passa a observar não somente o indivíduo de forma isolada, mas que existe uma relação estabelecida entre as diversas partes para manter esse sistema e que são responsáveis por gerar um comportamento resultante destas relações. 

Pensando nisso, numa organização ou projeto impor a sua vontade sobre um sistema não é o melhor caminho. O que deve-se fazer é observar, ouvir o que o sistema diz. Desta forma, irá se descobrir como os fluxos, regras, políticas da empresa estão criando um ambiente favorável para determinados comportamentos produzidos. 

Um dos primeiros passos para realizar intervenções eficazes em uma organização ou um projeto é observar o propósito. Aliás, é oportuno citar uma relevante consideração que Donella Meadows faz a respeito do propósito: “O propósito de um sistema é difícil de ser notado. A função ou propósito de um sistema não é necessariamente dito, escrito ou expressado explicitamente. Propósitos devem ser deduzidos da observação do comportamento do sistema e não do que é declarado, não da retórica ou metas definidas.”

O problema é que muitas organizações e projetos sofrem com suas dores, mas o seu foco para resolvê-los é voltado para o comportamento. É como um paciente que toma um remédio para dor de cabeça sem procurar um profissional para diagnosticar o que está causando a dor. 

Exemplo 01 de aplicação da visão sistêmica: Atraso de pacientes

Em uma clínica onde há o evento de atrasos frequentes entre pacientes o plano de resposta esperado é, muitas vezes, criar um mecanismo de punição para o paciente que atrasa. O que pode até fazer parte da política, mas talvez não tenha a efetividade esperada. Porém, é importante procurar entender o motivo do atraso do paciente, observando as relações entre os vários elementos que compõem o sistema (o tratamento, fase, paciente, médico, atendente, infraestrutura, horário, ambiente, contexto pessoal, etc) e a relação entre todos. 

Certamente, o atraso do paciente é um evento resultante do produto da relação entres as inúmeras partes envolvidas no sistema de atendimento e o ambiente externo. Observar o que está acontecendo ajuda a entender as relações de causa e efeito que estão propiciando o evento de atraso do paciente e promover ações mais eficazes para eliminar ou mitigar o problema.

Após analisar o contexto e os elementos, o médico observou que os pacientes que mais chegavam atrasados eram jovens de 14 a 17 anos, no horário de 18:00h às 20:00h que dependiam dos pais chegarem do trabalho para os levarem para a consulta. O plano de resposta neste caso foi oferecer um serviço de transporte (com motoristas de aplicativo) para pacientes com este perfil. Essa ação reduziu em 95% os eventos de atraso.

Exemplo 02 de aplicação da visão sistêmica: Perda de talentos e pressão no trabalho

Muitas empresas reclamam que perdem talentos, mas raramente se questionam das motivações que causam as perdas. A qualidade de vida pode ser comprometida por um ambiente onde a pressão demasiada é um fator presente na rotina e pode causar danos graves nos resultados e, principalmente, nas pessoas.

Quando a pressão se torna um hábito, ela faz parte do sistema de trabalho da organização. Neste cenário os problemas começam e podem se tornar crises insustentáveis. Imagine uma organização onde os seus gestores tem por prática corriqueira a exercer uma pressão demasiada sobre os seus times em busca de resultados cada vez maiores e melhores. Para isso, nada e ninguém é poupado, horas extras, acompanhamentos rígidos de tarefas, reuniões para identificar erros e punir culpados, prazos de entrega “pra ontem”, etc.

  • O que acontece nos bastidores da organização que vive este cenário? 

A pressão demasiada eleva o aumento da produtividade por um certo tempo. Porém, ao se prolongar, também aumentará a fadiga da equipe, às vezes uns mais, outros menos. Seja como for, haverá queda de qualidade, gerando ocorrência de erros e aumento do retrabalho. 

O motivo não estará mais relacionado somente às capacidades técnicas individuais de cada um, mas do efeito negativo que a pressão causa em cada pessoa. Neste cenário a tendência é trabalhar cada vez mais e agregar cada vez menos. O esforço da equipe muitas das vezes estará focado em resolver problemas que foram gerados pela própria equipe. 

Sem a devida percepção do todo com o pensamento sistêmico, o que faz o gestor diante deste cenário? Aumenta ainda mais a pressão! Afinal, na percepção dele, sempre falta mais pulso e firmeza. É a chamada lei do chicote. 

Por fim, o gestor não consegue entender o motivo de grandes talentos abandonarem a empresa. Aliás, a frase mais usada é “Ele não aguenta pressão!” e o ciclo continua até que o sistema se deteriora completamente!

Conclusão

Nos exemplos acima as intervenções e análises sistêmicas foram importantes para transformar e observar não só um fato ou evento isolado, mas o sistema como um todo. Os elementos sistêmicos que, quando manipulados ou influenciados, podem gerar grandes transformações são chamados de pontos de alavancagem. Ao final da década de 90, Donella Medows publicou um trabalho que ficou conhecido como os 12 pontos de alavancagem de um sistema. Vale a pena conferir! 

Em resumo, o pensamento sistêmico nos ajuda a observar melhor o todo, a olhar para os sinais que acontecem hoje, melhorando a nossa percepção, nos permitindo ver os padrões de interdependências entre os elementos, olhando para o presente sem perder de vista o futuro. 

Em última análise, no mundo acelerado em que vivemos o caminho para líderes de grande responsabilidade em suas empresas passa por uma necessidade de visão sistêmica, onde a questão principal não é como o seu modelo de negócio vai entregar a solução, mas como o seu negócio vai reformular-se de forma eficaz para ser um veículo para as mudanças que o sistema precisa.